Foto: Paris Films
Ao longo das décadas, o conde Drácula já foi metáfora para aristocratas explorando os pobres, o medo xenófobo, a libertinagem sexual e até a luta contra a morte.
Luc Besson, no entanto, decide remover quase todos esses subtextos e apresentar o vampiro como um romântico incurável, guiado por um único propósito: reencontrar sua amada Elisabeta, perdida séculos atrás.
Um conde apaixonado

Em Drácula – Uma História de Amor Eterno, Besson deixa de lado o horror visceral que marcou tantas adaptações de Bram Stoker para apostar em um conto de amor atemporal.
Assim, no longa, Vlad renega Deus após a morte de sua amada Elisabeta e, amaldiçoado com a imortalidade, vaga por séculos na esperança de reencontrá-la.
Séculos depois, encontra Mina, idêntica à esposa perdida, reacendendo sua obsessão.
Besson, conhecido por obras como O Quinto Elemento e Lucy, molda seu Drácula como um herói romântico, aproximando-o mais de um poeta sofredor do que de um predador sanguinário.
Logo, a violência e o terror dão lugar a figurinos luxuosos, cenários que lembram óperas europeias e uma trilha dramática de Danny Elfman.
É um espetáculo visual, mas que, por vezes, sacrifica profundidade em nome da estética.
Romance primeiro, terror depois
Diferente das versões mais sombrias e cheias de camadas do mito, Besson opta por um melodrama com leves toques de terror.
O cineasta constrói um Drácula exagerado, gesticulando e suplicando em cada cena, sempre coberto de sangue, lágrimas ou suor.
Além disso, Caleb Landry Jones entrega uma atuação intensa, beirando o histriônico, que pode encantar ou incomodar.
Por fim, a Transilvânia perde espaço para cenários em Paris e na Finlândia, e até o século XV parece ambientado no presente.
A beleza de Drácula

Há momentos em que o filme brilha, como nos diálogos afiados e carregados de subtexto, ou nas canções que dão tom às cenas, embaladas por uma fotografia cuidadosa.
Aliás, o design de produção da Londres do século XIX é impecável, com figurinos e cenários dignos de um quadro.
Zoe Bleu e Matilda De Angelis entregam atuações delicadas, enquanto Christoph Waltz, no papel de um padre caçador, repete seu cínico charme habitual, embora sem grande impacto dramático.
Por outro lado, as cenas de ação e violência soam artificiais e sem o peso esperado.
Desta forma, o uso de gárgulas lutadoras, por exemplo, gera mais estranhamento do que tensão.
Mesmo as subtramas curiosas, como um lago congelado ou um culto bizarro, parecem cortadas antes de se desenvolverem.
Um Drácula para tempos cínicos
Certamente, Besson insere seu filme na tradição romântica, defendendo o ideal de “querer desejar” mais do que a satisfação do desejo.
Isso o distancia tanto do terror expressionista de Nosferatu (2024) quanto das versões hollywoodianas que transformam o conde em figura de ação.
É uma obra que aposta no melodrama gótico e na inocência juvenil como resposta ao cinismo contemporâneo, mesmo que isso signifique perder parte da essência ameaçadora do personagem.
O resultado é um Drácula visualmente marcante, com momentos de charme e sensibilidade, mas que pode frustrar quem procura o vampiro sombrio e assustador.
Para uns, será uma fábula romântica elegante; para outros, um “Drácula sem dentes”, bonito, porém brando demais.
Drácula: Uma História de Amor Eterno ou Passageiro?
Não podemos negar que Besson entrega uma obra diferente do que esperava-se.
Nesse sentido, podemos dizer que Drácula: Uma História de Amor Eterno não é o filme definitivo sobre o vampiro, mas oferece uma releitura ousada, romântica e esteticamente sedutora, ainda que falha no peso dramático e no terror gótico.
E Besson constrói um longa que, apesar das imagens provocantes e do verniz transgressor, mantém um olhar conservador sobre gênero e sexualidade.
No fim, a história se resume a uma declaração de amor eterno.
Ou seja, bela, porém simplificada e que transforma uma das narrativas mais ricas da literatura em um espetáculo visual mais preocupado em entreter do que provocar reflexão.
E você, prefere ver o conde como um monstro das sombras ou como um amante eterno?
Drácula: Uma História de Amor Eterno está em cartaz nos principais cinemas do país!
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