Foto: Universal Pictures
Dirigido por Chloé Zhao e baseado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet parte de um gesto delicado e ambicioso.
Isto é, imaginar como a morte precoce do filho de William Shakespeare pode ter moldado a criação de Hamlet, uma das maiores obras da história do teatro.
Assim, a cineasta transforma esse ponto de partida literário em um drama íntimo, sensorial e profundamente humano.
Além disso, o longa conquistou crítica e público ao redor do mundo — coroado com o Golden Globe Awards 2026 de Melhor Filme de Drama.
Uma história íntima por trás de um mito universal

Antes de mais nada, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet parte de um gesto simples e poderoso: olhar para William Shakespeare não como o gênio intocável da história, mas como um homem atravessado pela perda mais devastadora possível.
Ademais, o longa escolhe um caminho sensível e, acima de tudo, humano para revisitar a origem imaginada de Hamlet.
Em vez de acompanhar a construção intelectual de uma das maiores peças da dramaturgia ocidental, o filme se ancora na experiência do luto.
Mais precisamente, no impacto da morte do jovem Hamnet sobre Agnes, a esposa de Shakespeare, interpretada de forma arrebatadora por Jessie Buckley.
É a partir dela — e não dele — que essa história se desenha.
Agnes no centro do mundo

Inegavelmente, Jessie Buckley entrega aqui uma atuação monumental.
Sua Agnes é vista pelos moradores como alguém à margem — ligada à terra, às plantas, aos animais e a um tipo de conhecimento ancestral que flerta com o misticismo.
Nesse sentido, Zhao utiliza essa conexão para transformar o ambiente em extensão emocional da personagem: a floresta, o vento, a água e o silêncio falam tanto quanto os diálogos.
Buckley percorre uma jornada devastadora, da plenitude doméstica ao esvaziamento absoluto provocado pela perda do filho.
Seu luto não é espetacularizado, mas sentido em gestos contidos, olhares quebrados e movimentos que parecem sempre à beira do colapso.
É uma atuação que já se impõe como uma das mais marcantes da temporada.
Paul Mescal, por sua vez, constrói um Shakespeare dividido entre o amor familiar e o impulso criativo.
Assim, seu William encontra no teatro uma válvula de escape para a culpa e a dor, e Zhao o filma com reverência pictórica, como se cada close fosse um retrato renascentista em movimento.
Por fim, a química entre os dois atores sustenta o filme mesmo nos momentos mais silenciosos.
Beleza, silêncio e excessos

Visualmente, Hamnet é irretocável. A fotografia de Łukasz Żal aposta na luz natural, nas chamas de velas, nos campos abertos e nas florestas como refúgio emocional.
A natureza, como em outros filmes de Zhao, surge como contraponto ao sofrimento humano, oferecendo acolhimento quando as palavras falham.
Narrativamente, porém, o longa oscila. Ao optar por uma abordagem mais literal e linear do que o romance, Zhao por vezes sublinha emoções que poderiam emergir com mais força no silêncio.
Algumas repetições dramáticas e decisões de montagem diluem conflitos que pediam maior aprofundamento.
Ainda assim, quando o longa acerta, ele acerta fundo; especialmente ao compreender que nem toda dor precisa ser explicada.
O luto que vira cena
No entanto, se há algo magnífico no filme é graças ao segundo ato.
Chloé Zhao conduz essa segunda metade com um rigor estético impressionante. A fotografia e o figurino trabalham em sintonia para expressar emoções que os personagens já não conseguem verbalizar.
Ou seja, as cores vibrantes do início se apagam, os tons se tornam opacos, como se a própria imagem entrasse em luto.
Hamlet
O ponto alto do filme acontece longe de gritos ou explosões dramáticas. Em silêncio, Agnes assiste à encenação de Hamlet no teatro.
E, assim, Zhao permite que as palavras de Shakespeare falem por si, transformando o momento em um ritual de catarse coletiva.
Ali, o luto privado se converte em experiência compartilhada. A dor encontra forma. O finito se torna eterno.
É nesse instante que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se revela menos interessado em explicar Shakespeare e mais em afirmar algo universal: a arte não apaga a perda, mas oferece um lugar para ela existir.
Além disso, o cinema encontra a literatura de forma quase dolorosa. Agnes vê no palco aquilo que perdeu: o filho que poderia ter crescido.
Will, por sua vez, finalmente externaliza sua dor, transformando ausência em permanência.
Logo, não se trata de uma explicação definitiva sobre a obra de Shakespeare, mas de uma hipótese emocionalmente poderosa e isso basta.
Um drama íntimo que se torna eterno

Sem recorrer a obviedades biográficas ou explicações didáticas sobre o gênio de Shakespeare, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet encontra sua potência na universalidade da perda.
Ou seja, na dor de Agnes, no silêncio de William e na ausência que atravessa cada espaço da casa transformam o filme em uma reflexão sobre memória, legado e finitude.
É nesse gesto contido, mas profundamente humano, que Chloé Zhao realiza o trabalho mais maduro e emocional de sua carreira.
Sustentado por atuações marcantes — com destaque absoluto para Jessie Buckley —, o longa se firma como um drama ambicioso, delicado e profundamente humano.
Em suma, um filme que entende que, antes do gênio, existiu o pai.
Antes da obra-prima, houve o vazio. E que, às vezes, criar é a única forma possível de sobreviver à dor.
No fim, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não é apenas sobre a origem de uma tragédia clássica, mas sobre o amor que persiste mesmo quando tudo parece perdido e sobre como transformar a ausência em permanência.
E você, acredita que a arte é capaz de curar feridas que o tempo não consegue fechar?
O longa já está em cartaz nos principais cinemas do país!
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Nota da Miss TV:
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