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Em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, Rian Johnson leva sua franquia de mistério a um território mais sombrio, introspectivo e arriscado.
Se Entre Facas e Segredos funcionava como uma atualização vibrante do “quem fez isso?” clássico e Glass Onion apostava no excesso satírico e no espetáculo autoconsciente, o terceiro capítulo busca o caminho oposto.
Isto é, menos brilho, mais silêncio; menos jogo social, mais dilemas morais.
O resultado é um filme ambicioso, repleto de ideias instigantes, que nem sempre encontram a forma mais equilibrada de se expressar.
Um novo tom para Benoit Blanc

De fato, o terceiro longa preserva o prazer do mistério, mas amplia seu alcance ao dialogar com fé, culpa, poder e hipocrisia — temas espinhosos e extremamente atuais.
Nesse sentido, o assassinato que dá início à trama, ocorrido em uma pequena comunidade marcada pela devoção religiosa, funciona menos como um simples quebra-cabeça lógico e mais como um gatilho para discutir conflitos morais.
Johnson continua interessado em observar a sociedade através de microcosmos, e aqui encontra na igreja e em seus líderes o ambiente ideal para expor contradições, discursos radicais e disputas de influência.
A igreja como palco do pecado
A principal virada está no cenário.
Ao situar a trama em uma igreja rural decadente, Johnson transforma o espaço em muito mais do que um local de confinamento: trata-se de um símbolo.
Assim, fé performática, culpa, hipocrisia e poder institucional atravessam cada canto do ambiente, criando uma atmosfera opressiva que contamina personagens e narrativa.
É, sem dúvida, o filme mais sombrio da franquia, tanto visual quanto tematicamente.
Ademais, essa escolha dá ao longa uma identidade própria, distante dos cartões-postais luxuosos do capítulo anterior.
Essa mudança de ambiente também altera o foco do mistério.
Ou seja, aqui, o “quem matou?” divide espaço com perguntas mais desconfortáveis, como “por que matou?” e “o que se esconde por trás da fé?”.
Enfim, Johnson demonstra interesse genuíno em discutir o uso político da religião, a radicalização moral e a manipulação de narrativas.
Inserindo, portanto, debates contemporâneos dentro da engrenagem do gênero.
Fé em conflito e personagens à prova

O coração dramático de Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out está no embate entre duas figuras centrais: o jovem padre Jud (Josh O’Connor) e o influente monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin).
Jud carrega um passado turbulento e busca redenção por meio da escuta e do acolhimento, enquanto Wicks enxerga a fé como instrumento de controle e medo.
Essa oposição não apenas estrutura a narrativa, como também reflete um mundo cada vez mais polarizado, onde empatia e diálogo parecem em extinção.
Ao redor deles, uma galeria de suspeitos completa o jogo clássico do gênero.
Nesse sentido, Glenn Close diverte e inquieta como uma devota intransigente.
Enquanto nomes como Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Jeffrey Wright, Mila Kunis e Bridget Everett enriquecem o mosaico humano da história, ainda que alguns tenham menos tempo para se desenvolver plenamente.
Josh O’Connor rouba a cena
Inegavelmente, Josh O’Connor surge como o grande destaque do elenco, oferecendo uma atuação sensível e vulnerável que sustenta o peso emocional do filme.
Seu personagem questiona o valor da crença em um ambiente tomado por discursos de ódio e manipulação, convidando o público a refletir sobre perdão, recomeço e responsabilidade.

O ator entrega uma performance intensa e multifacetada, transitando entre gentileza, trauma e desespero com naturalidade.
Aliás, Jud funciona como contraponto direto a Benoit Blanc.
Ou seja, enquanto o detetive enxerga o mundo como um sistema lógico a ser desmontado, o padre carrega contradições que não se resolvem apenas com dedução.
Daniel Craig, por sua vez, adota uma abordagem mais contida do personagem.
Blanc demora a entrar em cena e, quando aparece, parece deslocado, quase melancólico, em um universo onde a razão nem sempre é suficiente.
Essa tensão entre fé e lógica rende alguns dos melhores diálogos do filme, embora o roteiro, por vezes, exagere na necessidade de explicar seus próprios símbolos e intenções.
Um mistério que provoca mais do que entretém
No balanço geral, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é menos divertido e mais reflexivo.
Não chega a ser o ápice da franquia, mas tampouco representa um retrocesso.
É um capítulo que arrisca, amadurece e aponta novos caminhos para Benoit Blanc, mesmo tropeçando na própria necessidade de provar sua inteligência o tempo todo.
Em suma, Johnson entrega um filme que provoca mais do que encanta e talvez esse seja, ao mesmo tempo, seu maior mérito e sua maior limitação.
Vale a pena assistir?
Sim. Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out talvez não seja o filme mais leve ou mais engraçado da franquia, mas é, sem dúvida, o mais reflexivo.
Ao questionar não apenas quem matou, mas por que matou, o longa reafirma a relevância da série.
Embora o filme apresente algumas irregularidades de ritmo e não tenha um elenco tão afiado quanto os capítulos anteriores, sua ambição temática e sua atmosfera diferenciada o colocam acima da média das produções recentes do gênero.
E para você, essa abordagem mais sombria fortalece ou enfraquece a franquia Knives Out?
O terceiro filme da franquia já está disponível no catálogo da Netflix!
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