Foto: A24
Misturando fantasia, romance e um toque de existencialismo, Eternidade surge como uma das propostas mais curiosas recentes da A24.
Dirigido por David Freyne, o longa se apoia numa premissa fantástica — e deliciosamente excêntrica — para escancarar, com humor e sensibilidade, o peso das escolhas emocionais que carregamos vida adentro… e vida afora.
Um pós-vida cheio de charme, dilemas e memórias

Que delícia mergulhar num filme que, ao mesmo tempo em que brinca com o absurdo do pós-vida, nos convida a revisitar aquilo que realmente importa quando tudo o que conhecemos chega ao fim.
Eternidade transforma a vida após a morte em uma espécie de centro comercial burocrático.
Assim, após morrer, cada pessoa tem apenas sete dias para decidir onde deseja passar… bem, a própria eternidade.
A partir dessa premissa absurda e irresistível, o longa constrói um triângulo amoroso improvável, investiga memórias, escolhas e inseguranças humanas.
E o melhor: ainda arranca gargalhadas.
Um triângulo amoroso onde menos esperamos
Certamente, o longa tem uma história pouco convencional.
Assim que morrem, Larry (Miles Teller) e Joan (Elizabeth Olsen) surgem num limbo vibrante que mistura estação de trem com feira de possibilidades infinitas.
Ali, cada recém-falecido recebe uma semana para decidir em qual tipo de eternidade deseja passar o resto dos tempos — mundos temáticos que vão de paraísos nostálgicos a recantos extravagantes onde até as regras da física parecem opcionais.
Só que o reencontro do casal reserva um choque: entre a multidão surge Luke (Callum Turner), o grande amor da juventude de Joan, morto há 67 anos e congelado na versão mais magnética de si mesmo.
Ele nunca seguiu adiante. Ficou esperando. E agora a eternidade se tornou, inesperadamente, um triângulo amoroso.
O resultado é um triângulo amoroso repleto de afeto, constrangimentos e duelos emocionais, sempre acompanhado de perto por Anna (Da’Vine Joy Randolph) e Ryan (John Early).
Isto é, funcionários do além que funcionam como guias… e torcedores declarados de seus “times” românticos.
Entre a fantasia perfeita e a vida vivida

A força de Eternidade não está apenas no conceito inventivo do limbo, mas em como David Freyne usa esse universo estilizado para refletir as camadas do amor, da memória e da identidade.
Nesse sentido, cada cenário funciona como uma metáfora viva: a montanha impecável ligada a Luke parece eterna — e também estéril — enquanto o subúrbio meio torto que remete a Larry pulsa com a bagunça carinhosa do cotidiano real.
É aí que o filme encontra seu brilho.
Não se trata de escolher “o melhor homem”, mas de encarar a pergunta essencial: quem somos depois de tudo o que vivemos?
Joan percebe que Luke representa a versão lapidada da juventude, aquela que a nostalgia transforma em mito.
Já Larry encarna a trajetória completa. Ou seja, os tropeços, a intimidade, o amor construído no tempo, e não idealizado pela distância.
O limbo, apesar da estética acolhedora e do humor encantador, guarda arestas.
Há algo profundamente humano no modo como o filme aborda a ansiedade de ter de escolher um futuro infinito e como cada opção, por mais tentadora, cobra renúncias inevitáveis.
Romance clássico em um mundo nada clássico
Apesar do universo excêntrico — mundos temáticos, escolhas irreversíveis e um pós-vida que mais parece um shopping colorido e artificial —, Eternidade abraça a estrutura de uma comédia romântica tradicional.
Há a moça dividida entre dois amores, os pretendentes tentando provar seu valor e momentos de vulnerabilidade que aproximam o público de cada personagem.
Além disso, o contraste entre uma estética lúdica e questionamentos filosóficos é um dos maiores charmes do filme.
Entre referências à escola de Wilder e Lubitsch, reflexões sobre felicidade e ecos de autores como Nietzsche e Camus, o longa consegue equilibrar leveza e profundidade sem perder o humor.
Ainda assim, a narrativa por vezes evita explorar completamente a complexidade do próprio conceito de eternidade.
Certamente, um potencial que poderia levar a história a níveis ainda mais ousados.
A força do elenco e do sentimento de Eternidade

Se o filme funciona tão bem, muito se deve às performances.
Elizabeth Olsen ilumina cada cena com uma Joan carismática e cheia de nuances.
Já Miles Teller traz humanidade a Larry, um homem imperfeito tentando merecer seu lugar ao lado da mulher que ama.
E Callum Turner entrega um romantismo quase mítico ao viúvo que esperou uma vida inteira — ou duas.
Além deles, Da’Vine Joy Randolph e John Early brilham com impecável timing cômico, roubando cenas e servindo como válvula de escape emocional em meio a tantas decisões impossíveis.
O que permanece quando tudo é para sempre?
Ao fim, Eternidade emociona não por oferecer respostas fáceis, mas por reconhecer que, diante do infinito, toda escolha parece insuficiente e ainda assim necessária.
Portanto, Freyne encontra poesia na dúvida, ternura no caos e humanidade naquilo que, ironicamente, acontece depois da morte.
A eternidade, sugere o filme, não é um destino pronto: é algo que se constrói; algo que se escolhe.
No fim das contas, Eternidade é um longa doce, divertido e, acima de tudo, humano.
E você… se pudesse decidir com quem atravessar o infinito, escolheria o amor idealizado do passado ou aquele que amadureceu ao seu lado?
O filme já está em cartaz nos principais cinemas do país!
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Nota da Miss TV:
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