Foto: Divulgação
Leia nossa crítica direto da 78ª edição do Festival de Cannes
O diretor Kleber Mendonça Filho entrega sua obra mais ambiciosa até agora com O Agente Secreto.
O longa estreou com aclamação no Festival de Cannes 2025.
Além disso, o filme reafirma o talento singular de Mendonça em dialogar com o passado e o presente do Brasil através do cinema de gênero.
Um thriller tropical fora da curva

Com O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho retorna ao Festival de Cannes com um longa-metragem que escapa de qualquer classificação simples.
Ambientado em Recife, no ano de 1977, o filme é uma colagem vibrante de lembranças pessoais, homenagens cinematográficas e caos narrativo.
Se por um lado a coesão pode parecer um luxo ausente, por outro, o próprio excesso e a aparente desorganização fazem parte do charme dessa obra provocativa.
O longa segue Marcelo (Wagner Moura), um homem enigmático que chega à capital pernambucana durante o Carnaval.
Nesse sentido, ele carrega um passado misterioso e busca respostas em meio a um cenário pulsante e ameaçador.
No entanto não espere uma espionagem tradicional; o “agente secreto” do título nunca chega a ser exatamente isso.
Assim, no lugar do suspense clássico, encontramos uma narrativa tortuosa recheada de policiais corruptos, fantasmas do passado, delírios carnavalescos e até uma perna humana encontrada dentro do estômago de um tubarão.
Uma Recife de 1977 construída com rigor sensorial e político
Certamente, Mendonça Filho reconstrói a década de 70 com um olhar detalhista e cinéfilo.
Ou seja, carros antigos, telefones públicos famintos por fichas, roupas coladas ao corpo pelo suor e uma trilha sonora que mistura batidas carnavalescas a sucessos da época.
A estética é vintage, mas a sensibilidade é atual.
Tudo é pensado para transmitir uma sensação de “grande travessura”, termo que aparece nos créditos iniciais do filme e que resume bem o espírito da obra.
Aliás, o diretor bebe diretamente do cinema da época, em especial dos filmes B, e transita livremente entre o drama político e o pastiche estilizado.
Em certos momentos, o longa flerta com o terror, em outros, com o absurdo puro, como numa sequência em que uma perna decepada ganha vida em meio a um parque de diversões erótico.
Entre o pessoal e o político, O Agente Secreto surpreende

Apesar de toda a fantasia visual, O Agente Secreto está impregnado de significados.
A perseguição a Marcelo, por exemplo, ecoa as cicatrizes da ditadura militar, ainda que de forma sublimada.
Ademais, o personagem busca não apenas escapar do país, mas também reunir vestígios da existência de sua mãe desaparecida em uma jornada que mistura espionagem, saudade e busca por identidade.
Nesse cenário onde memória e presente se misturam, o filme aposta em personagens simbólicos.
Ou seja, assassinos de aluguel, figuras paternas em conflito, burocratas sádicos e mulheres do futuro munidas de iPhones e arquivos perdidos.
O resultado é um mosaico de tempos e tons, que reflete uma nação fragmentada entre o que foi, o que é, e o que tenta esquecer.
Cinema, memória e resistência
O Agente Secreto é deliberadamente confuso.
Sua estrutura espalhada e suas mudanças bruscas de tom podem frustrar espectadores em busca de uma linha narrativa mais clara.
No entanto, essa escolha estética faz sentido dentro da proposta, pois trata-se de uma obra sobre como lembranças e traumas são construídos e reconstituídos ao longo do tempo, muitas vezes de forma incoerente ou fabulosa.
Mais que um cenário, Recife é tratado como personagem.
Assim, locais emblemáticos como a Praça do Sebo e o Cine São Luiz surgem como bastiões de uma cultura em risco, reforçando o papel do cinema como espaço de resistência, memória e encontro.
É ali, no São Luiz, que Marcelo encontra momentos de alívio e abrigo, como se os filmes fossem capazes de protegê-lo do esquecimento.
Além disso, a presença de figuras excêntricas, como o alfaiate judeu vivido por Udo Kier, e detalhes bizarros (como um gato com duas caras) compõem uma paisagem onde a realidade e o delírio se fundem.
Wagner Moura é O Agente Secreto

Mais do que um suspense político, O Agente Secreto é um filme sobre memória, identidade e o peso das narrativas que escolhemos contar (ou esconder).
E justamente nesse cenário que Wagner Moura apresenta uma de suas melhores atuações.
Moura, em uma atuação contida e misteriosa, ancora esse universo instável. Seu Marcelo é ao mesmo tempo herói improvável e figura passiva diante da brutalidade e da fantasia ao seu redor.
É ele quem costura, ainda que discretamente, as diversas camadas do filme. Isto é, da crítica política à fábula nostálgica, do thriller paranoico à comédia surrealista.
Inegavelmente, o ator brasileiro entrega em O Agente Secreto uma de suas atuações mais tocantes, equilibrando a vulnerabilidade de um homem em fuga com a força silenciosa de alguém que se recusa a ser apagado.
Em seus olhos, há o peso da perda e a urgência de viver. Ao seu redor, nomes como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho e Carlos Francisco constroem uma rede de afetos e perigos que enriquecem a narrativa.
O cinema brasileiro está vivo!
Depois do sucesso e do merecido Oscar de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui, muito se falou sobre o que esperar do cinema brasileiro.
E O Agente Secreto só comprova que o cinema brasileiro tem tudo para continuar nos orgulhando.
Mais do que um thriller, O Agente Secreto é uma obra sobre o Brasil que foi calado e que ainda resiste para ser ouvido. Um tema já visitado na obra de Walter Salles.
Assim, ao usar a espionagem como metáfora para os muitos apagamentos da história brasileira, Kleber Mendonça Filho constrói um filme poderoso e profundamente melancólico.
Ou seja, ele não fala apenas da ditadura, mas da estrutura do país que permite e perpetua silêncios até hoje.
Por fim, podemos dizer que é um tributo aos cinemas de rua que desapareceram, às histórias orais que escaparam dos livros, às pessoas que sobreviveram ao apagamento e àquelas que, como a jovem pesquisadora do presente, se empenham em ouvir e resgatar essas vozes.
Kleber Mendonça Filho entrega um filme denso, fascinante e imperfeito como a própria história do Brasil.
Em resumo, um longa que carrega no corpo o suor, a poeira e o grito abafado de um tempo em que sobreviver já era um ato de resistência.
E você? Vai se deixar levar pela travessura delirante de O Agente Secreto? Compartilhe sua opinião!
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Nota da Miss TV:
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