Foto: Sony Pictures/Divulgação
Margot Robbie e Colin Farrell juntos? Sim, em A Grande Viagem da Sua Vida os dois atores não só atuam juntos, como fazem par romântico.
Em um cenário cinematográfico repleto de super-heróis, franquias e sequências intermináveis, o longa surge como uma proposta distinta.
Isto é, um romance filosófico que mistura drama intimista com doses de realismo mágico.
Dirigido pelo sul-coreano Kogonada, conhecido pelo delicado Columbus (2017), o longa apresenta Farrell e Robbie em um encontro improvável que se transforma em uma viagem existencial.
Um romance embalado pela nostalgia

Inegavelmente, A Grande Viagem da Sua Vida tenta resgatar o espírito dos romances clássicos das décadas de 80 e 90, apostando em uma atmosfera que mistura fantasia e afeto.
Nesse sentido, somos apresentados aos protagonistas da história: David e Sarah.
Eles se conhecem em um casamento e acabam conduzidos a uma jornada mágica após atravessarem uma misteriosa porta vermelha.
Aliás, essa experiência fantástica permite que eles revisitem momentos de seus passados, confrontem traumas, façam escolhas diferentes e imaginem novas possibilidades para o futuro.
É dessa premissa que nasce uma história que mescla romance, fantasia e drama existencial.
Magia, música e escapismo
O filme não esconde sua proposta de criar uma espécie de conto de fadas moderno.
Do GPS que dita os rumos da viagem até os cenários plastificados que lembram estúdios, tudo é construído de forma assumidamente artificial.
Ademais, a fantasia serve como motor da narrativa.
Ou seja, vimos portas que levam ao passado, encontros improváveis e até mesmo reconciliações impossíveis, como a chance de fazer as pazes com uma mãe já falecida.
Há também uma cena musical que quebra o tom dramático e remete ao encanto dos musicais clássicos, reforçando o caráter escapista da obra.
Nesse sentido, o diretor Kogonada abraça a cafonice como estética e aposta na crença de que o amor, a esperança e a magia do tempo podem curar feridas.
As portas para o passado e a metáfora central

O recurso das portas funciona como o coração simbólico do filme.
Cada uma delas abre um capítulo íntimo da vida dos protagonistas, seja uma lembrança alegre, seja uma ferida mal cicatrizada.
A ideia é simples, mas poderosa: revisitar memórias é também confrontar quem fomos e entender quem somos hoje.
No caso de Sarah, grande parte dessas viagens está ligada a abandonos. Ou seja, de parceiros, de familiares, de si mesma.
Já as portas de David refletem sua solidão e a frustração por nunca corresponder às expectativas alheias.
Essa dualidade funciona bem; enquanto ela precisa aprender a permanecer, ele precisa aceitar que nem sempre será o centro de tudo.
Ainda assim, o roteiro de Seth Reiss nem sempre aprofunda como poderia essas lembranças.
Há sequências que tocam em dores universais — como o arrependimento de não passar tempo suficiente com alguém amado —, mas outras soam repetitivas ou superficiais.
A Grande Viagem da Sua Vida: Romance entre clichês e delicadezas
É impossível não notar o quanto o filme se apoia em arquétipos conhecidos do gênero.
Nesse sentido, David é o típico “homem triste em busca de sentido”, enquanto Sarah começa como uma versão quase moderna garota dos sonhos, encantando justamente por ser diferente e imprevisível.
No entanto, Kogonada e seu elenco conseguem suavizar esse peso do clichê.
Robbie, em especial, dá a Sarah camadas que a afastam da caricatura.
Logo, sua dor pela perda da mãe (Lily Rabe, em participação marcante) torna a personagem mais humana e próxima do público.
Farrell, por sua vez, é convincente no papel do homem melancólico que aprende, pouco a pouco, a se abrir para o afeto.
A química entre os dois não chega a ser arrebatadora. Porém, é consistente o suficiente para manter o espectador envolvido.
Não estamos diante de um casal histórico do cinema, mas de dois atores talentosos que conseguem sustentar uma trama intimista.
Limitações de um romance açucarado

Apesar da boa química entre Farrell e Robbie, A Grande Viagem da Sua Vida sofre com diálogos repetitivos e um excesso de ingenuidade.
A insistência de Sarah em se autodeclarar “um monstro” por suas traições acaba mais irritando do que emocionando, enquanto a previsibilidade do romance torna a narrativa arrastada.
Ademais, a obra também recusa qualquer peso dramático real.
Ou seja, acidentes de carro não têm consequências, dores são facilmente reparadas e até a publicidade de uma rede de fast food ganha destaque constrangedor.
O resultado é uma experiência que oscila entre o carisma dos protagonistas e um tom excessivamente adocicado, que pode soar vazio ou forçado.
O estilo de Kogonada: beleza e limitações
Visualmente, A Grande Viagem da Sua Vida é deslumbrante em muitos momentos.
Assim, as cores saturadas — especialmente os tons primários de vermelho, azul e amarelo — criam um aspecto lúdico, quase teatral.
Há cenas que parecem tiradas de uma fábula experimental, em que o real e o mágico se misturam sem explicações.
Essa abordagem, no entanto, pode dividir opiniões.
Para alguns, será poética e contemplativa; para outros, arrastada e previsível.
O problema é que Kogonada, apesar da ousadia estética, não encontra sempre o equilíbrio entre forma e conteúdo.
Há planos belíssimos que não entregam a carga emocional que prometem, deixando a sensação de que a narrativa poderia ter ido mais fundo.
Vale a pena embarcar em A Grande Viagem da Sua Vida?
No fim, A Grande Viagem da Sua Vida é um filme de intenções nobres, mas que não alcança a profundidade emocional que deseja.
Ele oferece momentos de leveza, cores vibrantes e uma proposta de reencontro com o romantismo clássico, mas acaba entregando uma narrativa esquecível, que divide o público entre o encanto e a decepção.
Tem um título imponente, uma premissa intrigante e um elenco carismático.
No entanto, sua execução nem sempre acompanha essa grandiosidade.
A sensação é de que poderia ser mais ousado no drama, mais profundo no romance e mais impactante em suas reflexões.
Ainda assim, não deixa de ser uma experiência agradável.
Portanto, funciona como uma fábula moderna sobre memória, dor e a possibilidade de mudar o futuro ao revisitar o passado.
É uma obra que convida à contemplação, mesmo que não seja memorável a longo prazo.
E você, se tivesse a chance de abrir uma porta para o passado, teria coragem de atravessá-la?
A Grande Viagem da Sua Vida já está em cartaz nos principais cinemas do país!
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Nota da Miss TV:
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