Foto: Divulgação
Em seu segundo longa-metragem, Amores Materialistas, a diretora Celine Song (do aclamado Vidas Passadas) abandona o tom contemplativo e mergulha no barulho da vida adulta contemporânea.
Em vez do romantismo idealizado, encontramos aqui um amor pragmático, ou, melhor dizendo, negociado.
O longa parte de uma premissa instigante: e se o amor também tivesse um valor de mercado?
E se ele, assim como bens de consumo, estivesse sujeito a exigências, avaliações e até depreciação?
Apesar de flertar com a leveza de uma comédia romântica, o filme opta por uma abordagem mais melancólica, sofisticada e realista.
Logo, a pergunta não é quem Lucy ama, mas o que, afinal, significa amar em tempos de algoritmos e boletos.
E se o amor fosse um contrato?

Amores Materialistas é uma obra que troca a sensibilidade da memória afetiva pela racionalidade do amor sob o olhar capitalista.
Estrelado por Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans, o longa provoca o espectador com uma pergunta simples, porém incômoda: amar ainda é um gesto espontâneo ou virou uma questão de custo-benefício?
A trama gira em torno de Lucy (Johnson), uma “casamenteira moderna” que trabalha para uma empresa especializada em unir pessoas financeiramente compatíveis.
Assim, em sua rotina, amor e planilha caminham lado a lado e clientes são analisados por filtros como beleza, profissão e salário anual.
Entre entrevistas e algoritmos, Lucy reencontra John (Chris Evans), um ex-namorado que luta para se firmar como ator, ao mesmo tempo em que se envolve com Harry (Pedro Pascal), milionário carismático e aparentemente ideal.
Portanto, o triângulo amoroso, tão comum em comédias românticas dos anos 90, aqui é revisitado com um filtro mais crítico e mais ácido.
Um triângulo amoroso e ideológico
Ao tentar controlar o amor dos outros, Lucy se vê envolvida em seu próprio impasse emocional.
Assim, temos de um lado, o milionário carismático Harry (Pedro Pascal); do outro, John (Chris Evans), um velho conhecido sem grande estabilidade financeira, mas com quem compartilha uma história pregressa.
O roteiro de Song é afiado, sarcástico e permeado por reflexões sociológicas.
Ademais, a relação entre amor e capitalismo é o ponto central da trama.
O filme não nos diz que o amor morreu, mas que ele, assim como tudo mais em nossa sociedade, foi transformado em produto.
Logo, ao tratar o afeto como investimento — com risco, retorno e frustração — Amores Materialistas nos força a encarar o romance com um olhar cético, mas ainda assim sensível.
A princípio, o conflito parece clássico: dois homens disputando o amor da protagonista.
No entanto Amores Materialistas vai além do clichê e transforma esse dilema em um embate entre versões distintas do amor.
Ou seja, o sentimento espontâneo e caótico, a segurança do acordo racional e a ilusão de um futuro garantido.
Nova York como personagem em Amores Materialistas

Nova York, aqui, não é apenas pano de fundo, mas uma personagem vibrante e implacável.
É nesse cenário agitado que Lucy transita entre jantares caros, cafés descolados e apartamentos impecáveis; todos carregados de aparência e expectativa.
Portanto, a cidade traduz o espírito do filme: sedutora, veloz e cruel com quem não acompanha o ritmo.
Inegavelmente, Celine Song brinca com os clichês da comédia romântica, mas os subverte com inteligência.
Ao invés de um triângulo amoroso convencional, temos um conflito entre três visões de amor: o romântico, o estratégico e o nostálgico.
E o elenco brilha na própria história.
Assim, vemos um brilhante Pedro Pascal incorporando um “príncipe encantado” contemporâneo, pois ele é seguro, bem-sucedido e irresistível.
Já Chris Evans tenta (com relativo sucesso) convencer como o homem comum, falho, mas real.
É um embate entre mundos, e Lucy precisa decidir não apenas com quem quer estar, mas que tipo de vida deseja levar.
Crítica social embalada em romance adulto
Celine Song recorre a cenas simbólicas, como um prólogo que remete aos primórdios da humanidade, quando amar era apenas tocar, sentir, estar.
Essa ideia é retomada no final, reforçando o contraste entre o instinto e a construção social que virou o amor nos tempos atuais.
E é aí que Amores Materialistas surpreende, pois ele não julga, apenas apresenta.
Ou seja, o capitalismo não é o vilão, tampouco o romance é idealizado e o longa mostra como tudo se mistura, inclusive nossos sentimentos.
O roteiro, direto e provocativo, expõe o quanto nossas decisões afetivas hoje são influenciadas por status, projeção social e medo do fracasso.
Visualmente, Song e o diretor de fotografia Shabier Kirchner constroem uma narrativa imagética coerente com os conflitos internos da protagonista: estabilidade e controle com Harry; câmera solta e espontaneidade com John.
Inegavelmente, a diretora filma com sobriedade, alternando planos estáticos e momentos de silêncio incômodo para colocar o espectador frente a frente com as dúvidas internas de sua protagonista.
Assim, vemos um olhar contemplativo, por vezes distanciado, que nos faz observar Lucy como alguém que poderia estar no nosso círculo social ou mesmo ser o nosso reflexo.
Vale a pena assistir Amores Materialistas?
Apesar do roteiro sofisticado e das provocações sociológicas bem construídas, o filme sofre de um pequeno dilema: falta faísca.
Dakota Johnson está melhor do que em projetos anteriores, mas não consegue gerar uma conexão emocional potente com nenhum dos parceiros.
O romance se desenvolve mais no campo das ideias do que nas emoções.
Já os diálogos são densos e bem escritos, mas falta aquele brilho no olhar, aquela tensão silenciosa, aquele gesto cúmplice que transforma palavras em paixão.
Amores Materialistas não tenta emocionar de forma fácil. Em vez disso, convida à reflexão.
A pergunta final não é “com quem Lucy vai ficar?”, mas sim: “o que você busca em uma relação?”.
Certamente, Amores Materialistas não repete o impacto emocional de Vidas Passadas e nem tenta.
Afinal, trata-se de outro exercício de linguagem, com outro tom e outras perguntas.
Em tempos em que o romantismo parece ter sido engolido pelo algoritmo, o filme propõe uma reflexão atual e necessária: estamos mesmo dispostos a amar ou apenas tentando encontrar alguém que valide tudo o que acreditamos ser?
E você? Acredita que ainda existe espaço para o amor verdadeiro em um mundo regido pela lógica do capital?
Amores Materialistas encontra-se em cartaz nos principais cinemas do país!
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Nota da Miss TV:
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