Foto: Sony Pictures/Divulgação
Mais de duas décadas depois do marco que foi Extermínio (2002), Danny Boyle retorna à franquia com Extermínio – A Evolução.
Prometendo revitalizar a tensão apocalíptica e a visceralidade dos filmes anteriores, o terceiro capítulo da franquia chega aos cinemas com grandes expectativas e um título que sugere transformação.
No entanto, o que se vê em tela é uma obra que caminha em várias direções ao mesmo tempo, mas raramente entregando o horror que se espera de um filme da saga.
Entre o passado e o futuro: a Grã-Bretanha do caos

Ambientado 28 anos após o surto original, o filme nos apresenta a um Reino Unido abandonado, isolado do resto do mundo.
Assim, o vírus da raiva segue ativo e moldou uma sociedade completamente nova.
É nesse cenário que acompanhamos Jamie (Aaron Taylor-Johnson), Isla (Jodie Comer) e o jovem Spike (Alfie Williams), integrantes de uma pequena comunidade refugiada em uma ilha conectada ao continente por uma ponte estreita e altamente vigiada.
Quando Spike decide embarcar em uma perigosa missão até o continente em busca do Dr. Kelson (vivido por Ralph Fiennes, em participação poderosa), para ajudar sua mãe, que sofre de surtos psicóticos, a trama se transforma em uma jornada de tensão, enfrentamentos brutais e descobertas sombrias.
Aliás, a trama flerta com temas profundos sobre o instinto de sobrevivência, trauma e laços familiares.
Entretanto, muitas vezes tropeça em diálogos expositivos e decisões questionáveis dos personagens.
Há momentos que beiram o nonsense, e não é raro que o tom flutue entre o dramático, o grotesco e o quase cômico.
Visual arrebatador de Extermínio – A Evolução

A primeira coisa que salta aos olhos em Extermínio – A Evolução é o cuidado estético.
Desta forma, as paisagens das Highlands escocesas, captadas com lirismo, contrastam com a brutalidade do mundo infectado.
Ademais a trilha sonora do grupo Young Fathers também contribui para um clima de urgência e melancolia.
Certamente, a estética do longa carrega a assinatura inconfundível de Danny Boyle.
Logo, cortes rápidos, múltiplos enquadramentos e uma edição que por vezes parece febril compõem uma experiência sensorial intensa.
O uso de iPhones e drones para capturar imagens em estilo lo-fi tem potencial para criar autenticidade, mas o excesso de filtros e mudanças visuais resulta, em muitos momentos, em pura desorientação.
A tentativa de criar um universo estético próprio é clara, porém, acaba mais confundindo do que enriquecendo a narrativa.
Ralph Fiennes se destaca no longa
Não dá para negar que o trio de protagonistas do filme é o grande destaque da trama.

Nesse sentido, podemos afirmar que Aaron Taylor-Johnson transmite a exaustão de um pai sobrevivente; Jodie Comer mergulha com entrega em sua personagem instável e complexa; e Alfie Williams impressiona pela intensidade.
No entanto é Ralph Fiennes quem rouba a cena ao protagonizar uma das cenas mais belas e tristes de Extermínio – A Evolução.
Apesar de aparecer na segunda metade, ele rouba a cena com um personagem excêntrico e enigmático; talvez o mais memorável da trama.
Infelizmente, o desenvolvimento dos personagens secundários deixa a desejar.
Ou seja, muitos surgem apenas para desaparecer, enquanto outros contradizem suas próprias motivações.
Essa falta de coesão enfraquece o arco dramático e compromete o engajamento emocional.
O horror está nos detalhes
Ao contrário de tantos filmes do gênero, Extermínio – A Evolução não se apoia em sustos fáceis ou vilões caricatos.
Nesse sentido, o terror é profundo, psicológico, entranhado nos diálogos e nas decisões dos personagens.
Os infectados, agora com mutações diversas, não são apenas monstros, mas versões distorcidas e hipertróficas da própria humanidade.
Mais do que explorar o corpo, o filme investiga a mente. E é nesse ponto que Garland brilha.
Seu roteiro evita obviedades e trabalha camadas de simbolismo, especialmente nas interações entre Spike e Kelson, que oferecem ao filme momentos de inesperada ternura e intensidade emocional.
Além disso, a terceira parte da franquia mostra que não se trata apenas de zumbis ou pandemias, mas da incapacidade histórica da humanidade de romper com seus próprios vícios violentos.
Sem recorrer a alegorias baratas ou vilões de terno, o longa, portanto, entrega uma crítica mais ampla e existencial: a violência evolui conosco.
E a única coisa mais assustadora do que os infectados é perceber que os gestos deles não estão tão distantes dos nossos.
Extermínio – A Evolução: Um novo começo ou apenas mais do mesmo?

Apesar das limitações, Extermínio: A Evolução abre caminho para uma nova trilogia, prometendo aprofundar o arco de Spike e explorar mutações tanto físicas quanto sociais.
A cena final, com referências a Laranja Mecânica, é provocadora e instiga curiosidade para os próximos capítulos.
Ademais, o filme se arrisca e desafia expectativas. Logo, não faltam sangue, caos e reviravoltas.
No entanto a ausência de um clímax marcante e a sensação de falta de direção clara podem frustrar tanto fãs da franquia quanto novos espectadores.
Uma nova trilogia em construção
Com previsão de continuação já em 2026 (Extermínio: Templo dos Ossos) e um capítulo final para 2027 (que pode trazer de volta Cillian Murphy), Extermínio – A Evolução marca um início promissor para essa nova trilogia.
Se os próximos filmes mantiverem esse equilíbrio entre brutalidade e poesia, estilo e substância, a franquia Extermínio pode se consolidar como uma das mais relevantes do cinema distópico contemporâneo.
Além disso, a volta de Boyle e Garland ao universo que ajudaram a criar é elegante e eficiente como suspense pós-apocalíptico. Assim como conta com elementos de grande qualidade.
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A terceira parte da franquia está em cartaz nos melhores cinemas do país.
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Nota da Miss TV:
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