Foto: HBO Max/Divulgação
À primeira vista, Mountainhead é uma comédia ácida sobre o poder, o ego e o fim do mundo.
No entanto, o longa acaba se perdendo na própria trama.
Ou seja, Mountainhead é uma sátira com boas ideias e intenções certeiras, mas que acaba naufragando em sua própria vaidade.
A premissa do filme

Após quatro temporadas mergulhado na selva corporativa de Succession, Jesse Armstrong leva sua obsessão pelos ricos e poderosos a um novo território: o do cinema.
Sua estreia em longa-metragem, Mountainhead, é ao mesmo tempo um prolongamento temático da série da HBO e um experimento mais grotesco.
Nesse sentido, vemos o colapso do mundo como pano de fundo para um fim de semana entre quatro bilionários isolados em uma mansão no topo de uma montanha.
O resultado? Um filme que funciona como sátira, mas que também flerta perigosamente com a repetição e o exagero.
Uma reunião de egos
Em Mountainhead, vemos quatro bilionários do setor da tecnologia se isolando em uma mansão no topo de uma montanha enquanto o mundo lá fora colapsa por causa de uma crise gerada por deepfakes e inteligência artificial fora de controle.
Logo, governos ruem, guerras e atentados explodem, e as fronteiras entre verdade e fake se desintegram.
Entretanto, Mountainhead prefere manter o foco nos criadores desse caos: quatro homens que, mesmo diante do apocalipse, estão mais preocupados com seus legados, suas ideias e suas vaidades.
Venis (Cory Michael Smith), Randall (Steve Carell), Jeff (Ramy Youssef) e Souper (Jason Schwartzman) representam diferentes arquétipos do magnata moderno.
De Elon Musk a Peter Thiel, todos parecem ter servido de inspiração.
Desta forma, esses personagens se veem como deuses do novo mundo, imunes às consequências de seus atos, dispostos a jogar com o destino da humanidade como se estivessem em uma mesa de pôquer.
Filosofia, ego e alienação

Reunidos anualmente nessa mansão (batizada Mountainhead em homenagem ao romance de Ayn Rand), eles vivem uma espécie de ritual masculino, sem esposas, sem funcionários e, idealmente, sem trabalho.
Mas a crise mundial – causada justamente por eles – transforma o que seria um fim de semana de relaxamento em uma tempestade de paranoia, surtos e decisões desesperadas.
E é justamente nisso que Armstrong acerta. Se em Succession havia espaço para construir personagens complexos e relações cheias de nuances, aqui a narrativa aposta mais na caricatura.
O resultado é uma dinâmica quase teatral, com personagens que mais representam ideias do que se comportam como pessoas reais.
Isso não significa que Mountainhead falhe em suas provocações.
Pelo contrário: o filme é eficaz ao satirizar a bolha em que vivem os bilionários da tecnologia, suas soluções absurdas para problemas que eles mesmos criaram e a crença delirante de que são os únicos capazes de “reescrever a narrativa” do mundo.
O poder da sátira em Mountainhead
A trilha sonora de Nicholas Britell e a fotografia opressora de Marcel Zyskind ajudam a construir o clima de confinamento e tensão crescente.
No entanto, o filme peca ao tentar empurrar sua sátira além do ponto.
Em certo momento, as discussões sobre miniaturizar humanos, desligar redes elétricas para distrair a imprensa ou dominar a nuvem com consciências imortais começam a parecer menos uma crítica e mais um delírio indulgente.
Se na primeira metade Mountainhead busca construir uma crítica mordaz, ainda que verborrágica, a segunda metade se rende a uma comédia escrachada, com situações absurdas que parecem desviar completamente da proposta inicial.
Portanto, a sátira perde a força quando o riso vira o fim em si mesmo, e as barbaridades ditas ou feitas pelos protagonistas se normalizam, como se não fossem reflexo de um sistema real.
Entre o sarcasmo e o nonsense

A montagem também contribui para essa sensação de descontrole.
Ou seja, enquanto os debates filosóficos são conduzidos com uma lentidão que beira o enfado, o clímax tenta imprimir urgência e humor pastelão, como em um plano de assassinato desastrado digno de comédia de erros.
A intenção de Armstrong parece clara: mostrar o quanto esses bilionários são ridículos e perigosos ao mesmo tempo.
Contudo ele não consegue encontrar o tom certo para que a piada funcione sem diluir a crítica.
Há, ainda, um senso de déjà vu inevitável. Assim, Mountainhead parece ecoar as melhores ideias de Succession, mas sem o mesmo pulso narrativo.
Apesar de seus excessos e repetições, Mountainhead é um filme provocador e necessário.
Ao fim, o longa deixa uma sensação incômoda: a de que, apesar da ironia e do cinismo, os bilionários saem ilesos.
Eles continuam no topo, enquanto o mundo se perde em caos e distrações. E nós, espectadores, bocejamos diante da impotência disfarçada de piada.
Vale a pena assistir Mountainhead?
Apesar das falhas, Mountainhead acerta ao sugerir que o futuro distópico não é mais uma ficção distante.
Com ferramentas como IA generativa, como o recém-lançado Veo 3 do Google, já sendo capazes de criar vídeos hiper-realistas a partir de simples comandos, o pesadelo do colapso informacional está cada vez mais próximo.
Armstrong entende isso, mas prefere rir do problema do que encará-lo de frente.
Logo, Mountainhead tinha o potencial de ser uma sátira definitiva sobre a elite tecnológica, porém se contenta em ser uma caricatura que se leva mais a sério do que deveria.
Com um elenco afiado e uma premissa instigante, o filme até começa bem, mas perde o rumo entre o cinismo e o cansaço.
Depois de assistir, talvez sua única reação possível seja um riso nervoso – ou um grito abafado.
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Nota da Miss TV:
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