Foto: Universal Pictures/Divulgação
O Esquema Fenício, novo filme de Wes Anderson, chegou aos cinemas como uma mistura de novidade e repetição.
De um lado, temos uma história mais linear e acessível; de outro, um retorno aos mesmos elementos visuais e narrativos que, com o tempo, passaram de marca registrada a fórmula previsível.
Visualmente, trata-se de um dos trabalhos mais exuberantes do diretor de O Grande Hotel Budapeste e Moonrise Kingdom, com sua habitual combinação de paletas vibrantes, enquadramentos simétricos e uma montagem tão cronometrada quanto um balé mecânico.
Mas por trás da estética primorosa, há também um roteiro que oscila entre o engenhoso e o disperso.
Uma sátira familiar

Exibido na 78ª edição do Festival de Cannes, o longa gira em torno de Zsa-Zsa Korda (Benicio del Toro), um magnata excêntrico e frequentemente alvo de atentados, que sobrevive a um novo ataque aéreo.
Assim, ele convoca a filha Liesl (Mia Threapleton), uma noviça, para se tornar sua herdeira e ajudá-lo a tocar um ousado plano financeiro.
Isto é, o esquema fenício do título que visa explorar uma fictícia nação do Oriente Médio.
Entre disputas familiares, tramas empresariais e traições de novela, pai e filha constroem uma aliança instável, unida por ressentimento e interesses.
Aliás, o diretor aposta numa sátira sobre plutocratas globais, disfarçada de comédia familiar disfuncional, com direito a freiras, magnatas, espiões e referências a Shakespeare.
Humor refinado, roteiro irregular
Coescrito por Anderson e seu parceiro de longa data Roman Coppola, o roteiro segue o estilo típico do diretor: irônico, elegante e pontuado por absurdos coreografados milimetricamente.
O humor funciona em muitos momentos, especialmente graças à dinâmica entre Mia Threapleton, Michael Cera (o secretário Bjorn) e Benedict Cumberbatch, que surge como o vilanesco tio Nubar, em modo quase-Rasputin.
Porém, apesar de algumas boas risadas e ideias criativas, o enredo carece de profundidade emocional.
As motivações são rasas, e o desenvolvimento dos personagens sofre com a estética sufocante que, embora visualmente impecável, limita a espontaneidade e a densidade da trama.
Como em outras obras recentes do cineasta, os personagens parecem protegidos demais por sua excentricidade.
Ou seja, são engraçados, mas dificilmente tocantes.
O Esquema Fenício: Um filme de ação à la Anderson
A maior ousadia de O Esquema Fenício talvez seja seu mergulho no universo do thriller de espionagem.
Nesse sentido, Anderson brinca com clichês do gênero – de guerrilhas tropicais a perseguições absurdas – e os traduz em sua linguagem lúdica e teatral.
A sequência de abertura no avião é um exemplo do que ele faz de melhor: mistura tensão, humor e coreografia visual com brilho e irreverência.
Entretanto, esse ritmo acelerado não se sustenta por muito tempo, pois o roteiro se perde em subtramas, personagens secundários e excessos formais.
Em meio a tantas ideias e referências, o fio condutor – a relação entre pai e filha – por vezes se dilui.
O resultado é um filme que brilha muito, mas raramente emociona.
Um espetáculo que encanta, mas não transforma

Não há dúvidas de que Wes Anderson continua sendo um dos diretores mais autorais do cinema contemporâneo.
Porém, O Esquema Fenício escancara uma tensão recorrente em sua obra. Isto é, a forma sofisticada engolindo a substância.
Mesmo que o filme toque em temas como capitalismo, ganância, vínculos familiares e até questões ambientais, esses elementos aparecem mais como alegorias visuais do que como motores dramáticos.
Apesar disso, a linguagem visual permanece intacta com simetria obsessiva, planos meticulosamente compostos e cores calculadas.
Há, no entanto, uma leve mudança tonal com cenas mais frias, sombras mais densas e uso pontual do preto e branco.
Ainda assim, falta o frescor de Asteroid City ou A Crônica Francesa. O que antes era encantadoramente excêntrico agora beira o repetitivo.
A sensação de déjà vu é inevitável.
Nesse sentido, é inegável não perceber algumas semelhanças com outras obras do cineasta.
O luxuoso “Palazzo Korda” remete ao Grande Hotel Budapeste. As cenas no deserto lembram Asteroid City. E o elenco, ainda que estelar, parece cumprir tabela.
É Mia Threapleton quem realmente se destaca, com segurança dramática e ótimo timing cômico.
O Esquema Fenício de Wes Anderson
O Esquema Fenício não é um filme ruim.
Pelo contrário: é bonito, curioso e agradável. Mas também é seguro demais.
Ao suavizar o conteúdo e focar no visual, Wes Anderson entrega um trabalho simpático, mas distante da inventividade que o consagrou.
Ao final, O Esquema Fenício é um exercício de estilo encantador e por vezes hilário, que oferece momentos de brilho autêntico, mas esbarra na repetição de uma fórmula que começa a mostrar sinais de desgaste.
Como Zsa-Zsa Korda tentando reinventar seu legado com um plano grandioso, Anderson parece buscar novas formas de contar suas histórias, mas acaba esbarrando nas mesmas engrenagens de sempre.
Ainda assim, para fãs do diretor, há muito o que saborear aqui: atuações afinadas, visual arrebatador e o charme excêntrico de sempre.
O filme entrega uma experiência curiosa, divertida e ambiciosa, mesmo que imperfeita.
E você? Acha que Wes Anderson ainda consegue reinventar sua fórmula ou está preso ao próprio estilo?
Conte pra gente nos comentários!
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