Foto: Paris Filmes/Divulgação
O cinema, de tempos em tempos, nos apresenta obras que desafiam categorizações fáceis. Emilia Pérez, do diretor Jacques Audiard, é um desses filmes.
Indicado a 13 categorias no Oscar 2025 e vencedor de prêmios importantes no Festival de Cannes, o longa se apresenta como um musical, mas não se limita a essa classificação.
Assim, entre gêneros que vão do drama ao thriller, e um enredo que toca em temas como identidade de gênero, violência e corrupção, a produção franco-belga é ao mesmo tempo fascinante e irregular.
Contudo, Emilia Pérez apresenta uma narrativa ousada e complexa, especialmente no que diz respeito à busca por identidade.
Um Musical Polêmico e Impactante
Certamente, Emilia Pérez é um filme que divide opiniões e gera debates acalorados.
E as recentes declarações polêmicas de Karla Sofía Gascón, a protagonista da história, no X (antigo Twitter) colaboram para que a história de Emilia Pérez seja vista com um pé atrás.

Como se sabe, a narrativa acompanha Juan “Manitas” Del Monte (Karla Sofía Gascón), um chefão do narcotráfico mexicano que contrata a advogada Rita Mora Castro (Zoe Saldaña) para auxiliá-lo em seu maior desejo: realizar sua transição de gênero e finalmente assumir sua identidade como Emilia Pérez.
A partir desse ponto, o filme se desenrola em uma estrutura não convencional, com canções originais compostas por Camille Dalmais e Clément Ducol, que são integradas de forma surpreendente ao cotidiano das personagens.
Assim, o número musical inicial, por exemplo, transforma um mercado de rua em um palco espontâneo, subvertendo expectativas de um musical mais clássico.
Além disso, podemos afirmar que Audiard opta por uma estética que evoca o glamour exagerado dos musicais da Broadway, com coreografias meticulosamente planejadas por Damien Jalet, resultando em algo visualmente hipnotizante, porém, confuso para quem não é fã deste gênero.
Um Enredo Ambicioso, Porém Fragmentado
A força de Emilia Pérez está no desenvolvimento de sua protagonista.
Desta maneira, é impossível não reconhecer o talento de Gascón, que entrega uma performance impressionante, navegando pelas complexidades de uma personagem que carrega as marcas de uma vida inteira de violência e repressão.
Aliás, seu trabalho é reforçado por um roteiro que busca dar profundidade a essa transição, sem cair em estereótipos simplistas.
No entanto, essa ambição também cobra seu preço. O filme tenta abarcar diversos temas, como transgeneridade, narcotráfico, corrupção e moralidade, mas, ao fim, não se aprofunda verdadeiramente em nenhum deles.
Assim, em sua tentativa de contar uma história de vida em larga escala, Audiard acaba construindo uma sucessão de eventos marcantes, mas que nem sempre se conectam de maneira orgânica.
Em contrapartida, a personagem de Zoë Saldaña, Rita, rouba a cena. A atriz se destaca, interpretando uma advogada cínica e pragmática que se envolve em uma missão que a transformará profundamente, carregando uma profundidade que há tempos não víamos numa coadjuvante.
Emilia Pérez: Um Filme Para Ser Sentido, Não Decifrado
Se Saldaña acaba surpreendendo de forma positiva no longa, não podemos dizer o mesmo sobre suas colegas.

Selena Gomez entrega um desempenho menos marcante, prejudicado por um espanhol pouco fluente e uma presença menos impactante em cena.
Em contrapartida, Adriana Paz, ainda que com um papel menor, justifica seu reconhecimento em Cannes ao dar camadas emocionais inesperadas a sua personagem.
Entretanto, nenhuma delas consegue se destacar tanto quanto Gascón e Saldaña.
Quanto a direção, não podemos negar que Jacques Audiard tenta deixar sua marca no cinema.
Ousada e inovadora, o diretor francês não tem medo de experimentar e de desafiar as convenções do cinema.
Ademais, a fotografia, a trilha sonora e as coreografias contribuem para criar uma atmosfera única e envolvente ao filme francês.
O Filme Em Si
Emilia Pérez é um filme que provoca reflexões sobre temas importantes e atuais, como a identidade de gênero, a violência e a busca pela felicidade.
No entanto, a abordagem do diretor pode parecer excessivamente ambiciosa para alguns, resultando em uma narrativa fragmentada e um ritmo irregular.
Apesar das críticas, é inegável que Emilia Pérez é uma obra cinematográfica ousada e original.
Além disso, o filme desafia o espectador a sair da sua zona de conforto e a questionar suas próprias crenças.
No fim, Emilia Pérez é um filme que divide opiniões; sua ousadia estética e narrativa o tornam memorável, mas sua falta de direção clara pode frustrar parte do público.
Desta maneira, podemos afirmar que Audiard quis contar uma história grandiosa, e, nesse processo, criou um filme que é ao mesmo tempo fascinante e difuso.
Apesar de suas imperfeições, trata-se de uma experiência cinematográfica singular, que merece ser vista, e sentida, sem reservas. Afinal, Emilia Pérez tem 13 indicações ao Oscar 2025.
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Nota da Miss TV:
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